Tuesday, July 9, 2019

Chapada dos Veadeiros - Primeiro DSO a gente nunca esquece!

Hoje vou contar um pouco sobre como consegui meu primeiro frame de um objeto de céu profundo. Esse momento memorável foi registrado na Chapada dos Veadeiros - GO em julho de 2019. Sai de Brasília rumo ao Camping PachaMama, e aqui faço um parênteses para agradecer toda a hospitalidade dos donos do camping, com meu "astromóvel" sempre pronto para as minhas aventuras astronômicas pelo cerrado.
Chegando em Alto Paraíso - GO, peguei a estrada para uma outra cidadezinha bem conhecida na chapada que se chama São Jorge. O camping fica situado entre essas duas cidades e ao pé do famoso Morro da Baleia, formação inconfundível na região.


Ao chegar no camping, observei o lugar e o céu para achar o melhor lugar para montar todo o equipamento. Lugar escolhido, foi hora de retirar tudo do carro e começar a organizar tudo antes da luz do dia ir embora. Uma coisa curiosa aconteceu enquanto eu tentava posicionar minha montagem equatorial para o polo sul, minha bússola não conseguia obter uma orientação dos polos magnéticos. Achei curioso aquilo e fui comentar com a Kelly (dona do camping), ela então me disse que isso acontecia mesmo e que acreditava ser resultado da grande concentração de cristais no solo da região.
Bom, sem a bússola tive que partir para o método visual observando o deslocamento do sol no céu durante um período constatei que o norte ficara próximo ao meio do Morro da Baleia. Pronto! tripé da montagem alinhada para o sul!

Todo o equipamento montado até o final do dia e aproveitei para descansar um pouco e comer aquele macarrão instantâneo 👌
O "seeing" do céu variou muito durante as duas noites que passei por lá, em certos momentos nuvens densas tomavam quase todo o céu e impedia qualquer astrofotografia. Iniciei os trabalhos com uma câmera Canon T5i e lente 18-55mm fixada em tripé para tentar registrar a via láctea próximo a constelação de sagitário.


Próximo as duas da manhã deixei a câmera e me voltei para o telescópio. O objetivo era conseguir fazer o alinhamento polar e deixar tudo pronto para a noite seguinte. Já as quatro da manhã consegui fazer um alinhamento polar aceitável usando o método drift do PhD2. Em alguns momentos tentei utilizar um método chamado de Polar Iterate Align da própria montagem CEM60, mas sem muito sucesso. Igualmente sem sucesso tentei Drift posicionando o eixo de ascensão reta paralelo ao chão e eixo de declinação perpendicular ao RA apontando o OTA para zênite. Nesse caso por algum motivo que ainda não sei, o start trail não aumentavam e nem diminuíam com os ajustes no azimute nem na latitude. Quando descobrir o que eu estava fazendo de errado vou postar aqui!.

(foto por Rodrigo Faria)

Durante esse processo notei que teria problemas sérios com o orvalho na madrugada e eu só tinha uma dew heater para o C8, que nessa ocasião estava no meu telescópio de guiagem. Alnihamento pronto, OTA e guide com orvalho e o cansaço chegando resolvi ir para a barraca.
Sem muito sucesso também para descansar, acordei por volta das 7 da manhã com os outros hóspedes do camping indo para as trilhas e cachoeiras da região. Naquele momento lembro de olhar para o céu e perceber que a quantidade de nuvens havia aumentado. Nuvens que logo no inicio da tarde trouxeram chuva! Isso mesmo! chuva na chapada dos veadeiros em pleno período de seca no cerrado.
Com a chuva no horizonte ao sul chegando, tive que sair correndo e desmontar tudo! sim, perdi tudo que eu havia feito na noite anterior! Mas paciência, astrofotografia é assim mesmo.

Para a felicidade de todos a chuva foi embora e com elas as nuvens também se dissiparam durante a madrugada, trazendo aquele céu privilegiado da Chapada dos Veadeiros!

(foto por Rodrigo Faria)

Logo no inicio da noite, com o camping cheio, algumas pessoas de aproximaram e fizemos ali uma sessão de observação, puderam ver as crateras da Lua, Saturno e Júpiter. Passada a sessão, me voltei para fazer um novo alinhamento polar e ajustar novamente o foco que foi perdido para o uso das oculares Por volta de 1 da madrugada estava tudo pronto para tentar minha primeira captura de um objeto de céu profundo. Fiz uma primeira tentativa com M83 mas não tive muito sucesso e como ela já estava próxima ao horizonte, resolvi tentar M8 (Nebulosa da Lagoa) que estava bem no zênite.
Para tentar localiza-la no campo de visão de C8 fiz um alinhamento da montagem com Júpiter que estava passando próximo e fiz um goto para M8.
Iniciei um frame de 60s ISO 3200 com a Canon 6D II e fiquei aguardando e para a minha surpresa voila!! La estava estava ela no canto superior direito do campo de visão, tirei mais alguns frames de 60 e 120 segundos para empilhamento, totalizando 50 minutos de exposição.


A Nebulosa Laguna (Messier 8, NGC 6523) é uma gigantesca nuvem interestelar na constelação de Sagitário. É classificada como uma nebulosa de emissão, cujos gases ionizados, principalmente hidrogênio, emitem radiação principalmente no comprimento de onda na faixa da luz visível vermelha. Tem magnitude aparente 6,0 e situa-se a 4 850 anos-luz em relação à Terra 

Lições aprendidas:


  • Um bom alinhamento polar pode demorar horas, portanto tenha paciência! Se planeje se possível para fazer a aquisição das frames na noite seguinte.
  • Alinhe sua montagem com uma estrela ou planeta que esteja o mais próximo possível do seu alvo. Em uma região celestial próxima.
  • Leve ferramentas! meu adaptador T se soltou do anel da câmera e meu parafuso de ajuste de latitude também! Isso durante a madrugada, se eu não tivesse as ferramentas corretas teria viajado mais de 200km pra nada!
  • Tenha um dew heater para o OTA e para o guide scope.
  • Tenha um dew shield para o seu OTA, no meu caso a estrada estava próxima e sempre passavam carros. Vai ajudar a não captar luzes parasitas
  • Se possível ajuste o FOV do OTA, Guide, Buscadora durante o dia em um ponto distante. Vai ajudar durante a busca do seu alvo a noite.
  • Também faça um ajuste do seu foco durante o dia em algum ponto distante no horizonte. Vai ajudar a localizar estrelas no céu para fazer ajustes mais finos.
  • Se possível leve baterias para a montagem e notebook. Nem sempre o melhor lugar que você for escolher para montar seu equipamento terá uma tomada/extensão.
  • Exercite sua paciência! Muitas coisas que não podemos controlar vão acontecer!
  • Não conseguir seu frame desejado não significa fracasso, você vai perceber que está constantemente aprendendo! Astrofotografia mais do que uma arte, é ciência! Uma hora ele virá!

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